domingo, 5 de junho de 2011

Geologada








Foi sábado a grande bebemoração! Estas criaturas curiosas fazem questão de deixar registrado que o dia 30 de maio é delas. Quem quiser que venha se juntar a estes doidos de pedra, porque alegria tem de sobra, principalmente se tiver muito chopp, música e papo bom. Se a conversa não rolar, então pergunte sobre teor, depósito, subterrâneo, testemunho e com certeza os olhos destes caras brilharão e a boca se abrirá em sorriso e num monte de informação. São movidos a energia da Terra e misturados nela são pinto no lixo. Não são vencidos pelo cansado desde que tenham uma rocha pela frente. Se for rocha dura, muito melhor, senão serve uma boa terra vermelha que leve ao minério. Se a mina é viável, ah, isto é de menor importância, o que vale é ter ido às profundezas da Terra depois do mapa estudado.

Vibração, entusiasmo, como definir este sentimento geológico? Talvez sabedoria, humildade de quem sabe que "A verdadeira potência do mundo é a Natureza". E salve o Dia do Geólogo!!!

domingo, 15 de maio de 2011

Bicicleta

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Nem sei como começar. Tantos meses se passaram, tantas coisas aconteceram que fica difícil acreditar que estou nova, novamente, pra recomeçar. Sem exageros, é claro.

Já havia pensado em voltar a blogar, mas a preguiça foi maior que a necessidade. Olho pra trás, vejo que tudo começou assim, por necessidade, mas hoje vejo tudo um pouco diferente. O mato sem cachorro continua o mesmo exagero de verde, o mesmo gigantesco silêncio, as mesmas pessoas socadas dentro de casa, a mesma chuva torrencial do inverno e o verão, que já começa esquentar por aqui, é o mesmo. Será? Se tudo vem mudando neste planeta, porque eu não haveria de mudar também?

Mas isto é papo que não vai levar a muita coisa. O que tenho de melhor a blogar hoje é um fato simples acontecido nesta minha estada por estas bandas amazônicas.

Contaram-me logo que aterrizei neste mato verde a dois anos atrás, que não havia ladrões de bicicletas na área. Todos se utilizam destes bi-ciclos por aqui pelo fato do lugar ser totalmente plano, asfaltado e ter ciclovia. Um excelente convite ao trânsito verde, à queima de calorias e à economia. De estudantes a funcionários, todos se utilizam do pedal pra ir e vir rapidamente da escola, do supermercado, do clube, do trabalho e até mesmo por puro prazer de circular em velocidade pelos limites da floresta.

Pois não fiquei de fora desta onda. Com duas bicicletas adquiridas com antecedência, engrosso a turma dos ciclistas. Quanto ao digníssimo geólogo, deixei-o de lado, depois de muitas restrições a sua bike que está envelhecendo de tão sem uso.

Ontem fui à academia, obviamente de bicicleta. Vi que havia muitas estacionadas no bicicletário e estranhei. Talvez fosse a hora do dia, talvez o verão trazendo mais energia aos inertes. Estacionei-a sem corrente, como venho fazendo nestes últimos anos. Sempre chego a pensar que corro risco, mas prefiro o sentimento otimista que me impregna no momento. Resolvo mais uma vez, deixá-la solta, livre, disponível. É meu espírito quem manda.

Entro na academia, faço meu programa inteiro, suo a camisa, metaforicamente falando, pois agora temos ar condicionado. A academia está novinha em folha, obra de igreja um dia acaba. Que felicidade pros incrédulos. Despeço-me de todos e vou ao encontro do meu veículo de duas rodas que me garantirá uma rápida chegada em casa, neste sol de rachar. Penso que estou mais uma vez livre desta tirania do corpo. Caminho para o bicicletário.

Acho que não preciso dizer, mas vou dizer mesmo assim. Levaram minha bicicleta. No meio de tantas cores e tipos, não consigo localizá-la. Chego mais perto, examino uma por uma, e não vejo nada familiar. Parece ser aquela ali. Não, esta é mais velha, muito mais. A minha é nova e além do mais tem cestinha. Caramba! Será possível que o inevitável aconteceu comigo? Fato consumado.

Alguns já haviam me falado que ninguém rouba bicicleta neste mato sem cachorro, o que acontece é que as pessoas pegam emprestado por alguma necessidade momentânea. Depois a devolvem, largam-na em algum lugar, às vezes jogam-na no chão, desprezadas depois de cumprirem uma missão.

Sempre desconfiei desta estória, achava que era papo de locais super valorizando a terrinha. Como assim? Bicicleta é socializada por aqui?

Contei para algumas pessoas sobre o desaparecimento da minha bicicleta, já que a palavra roubo me soava forte demais, e resolvi aguardar para comprovar esta estória de bicicleta social.

Hoje, logo após a academia, convidei minha vizinha e amiga para fazermos uma busca. De carro, cada uma olhando para um lado da rua, tentaríamos avistar qualquer coisa parecida com uma bicicleta vermelha. Caso encontrássemos, abordaríamos o dono e conferiríamos a procedência da dita cuja.

Contando talvez ninguém acredite, eu mesmo fico achando tudo isto surreal, mas o fato é que no final da primeira rua onde se encontrava uma parada de ônibus, não pude conter minha alegria e gritei: “é a minha bicicleta!”

Paradinha, escorada no concreto, do jeito que minha memória a registrara, lá estava ela, livre, solta, disponível como eu a havia deixado no dia anterior no bicicletário. Unbelievable!!!

A estória se confirmou. Algum necessitado de transporte rápido, se apoderou da minha bike, chegou ao ponto de ônibus, e só teve tempo de tomar um guaraná, e subir no veículo em direção ao seu destino final.

A pet na cestinha revelavam a presença humana e a posição da bicicleta, o seu honesto interesse nela.

Fiquei aliviada por recuperar minha vermelhinha, mas acho que o melhor de tudo, foi a comprovação de que pedalar por aqui é a mais pura extensão dos pés.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vidas novas chegando



Tem tempo que não registro meus momentos aqui neste mato sem cachorro. Acho que ando meio distraída, quero dizer, entretida com outros bichinhos. Mas depois do que vi esta semana, logo após uma torrencial chuva de madrugada e uma linda manhã de sol, meus dedos começaram a coçar novamente e aqui estou eu teclando.

Desci a serra até Parauapebas e não pude evitar o atropelamento de centenas de borboletas. Me desculpe mãe natureza, mas não tive culpa, as borboletinhas invadiam a estrada aos milhares e me fizeram perplexa com tamanha beleza. Até aquela grande, azul cintilante, ousou me encarar no para-brisas do carro. Pensei que as águas, não de março, mas de novembro, aqui neste outro quase hemisfério haviam chegado e com elas novas criaturas para alimentar este ciclo verde infinito.

Voltei pra casa depois de resolver algumas coisinhas no Peba, tomei meu banho e já ia preparar o almoço quando vi através da tela da porta da sala as borboletinhas novamente. Como não bastasse a estrada, invadiram também o jardim de casa. Que maravilha!!!

Abri a porta e fui apreciar a revoada caótica e frenéticas das recém-nascidas, e vi que se amontoavam na rua próximo ao meio-fio, em frente à casa vizinha. Vagarosamente me aproximei das verdinhas e pra meu espanto elas estavam reunidas numa poça de lama, cheia de material orgânico. Talvez seja hora de almoço, talvez estejam em conferência, talvez estejam celebrando com um drink. Sei lá, o que faziam, mas não pude evitar uma corrida até minha máquina fotográfica.

No sol, que secou quase imediatamente meu cabelo molhado do recém banho, fiquei registrando aquelas pequenas coisinhas coloridas que ora ficavam paradas, ora batiam loucamente em círculo, fugindo de alguém que passava. Eu, paralisada, só mexia o dedo indicador para disparar as fotos. Quase sem respirar, batia sem parar tentando captar cada movimento e posição que as voadoras faziam. A luz do sol batia em suas asas e davam brilho especial às cores verde, amarelo, laranja, tons suaves fazendo o conjunto dos seres, o mais bonito que vi nos últimos tempos.

Depois deste emocionante episódio, voltei pra dentro de casa e fui esquentar a comida pois o corpo já estava quente do sol e o coração aquecido até demais.








sábado, 16 de outubro de 2010

Davi

Fico emocionada ao escrever seu nome. É minha primeira vez, e como todas as primeiras vezes, há uma certa magia. Você já é uma presença em nossas vidas apesar de estar no planeta água, distante, sozinho, quietinho, ainda com muito espaço para mergulhar nas águas da sua mãe, minha filha.

Queria te dizer que seu cordão umbilical já está conectado a mim também, e que sua respiração já sobra suave na minha face. Já posso sentir seu toque, escutar sua fala e enxergar seus olhos. Estou ficando mais perto de você.

Queria te dizer que estou me preparando para quando você deixar este seu mundinho, pronto para se aventurar neste mundão. Estou me aquecendo para não lhe faltar calor.

Queria te dizer que farei de tudo para que você cresça no melhor dos mundos, o dos afetos. Sei que ainda vou ter que aprender muito, e para isto conto com você. Vamos trocar muitos, mas muitos beijos e abraços em nossas aulas de carinho.

Queria te dizer que seja você quem for, sei que é único e por isto devo me entregar intensa a esta aventura que é o conhecer humano. Estou cheia de ilusões, porque delas faço hoje, minha nova realidade.

Queria te dizer que vou continuar me preparando, e sempre que preciso, para que eu seja na sua vida um bem que nunca se acabe. Meu coração já está nesta sintonia e batendo no compasso do seu coraçãozinho. Não podemos deixar que sobressaltos atrapalhem nossa música, porque daqui por diante cantaremos juntos.

Por último queria te dizer que seu nome já me faz sonhar, e se você também sonha, que a gente já marque um primeiro encontro, o primeiro de muitos ...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Novos hóspedes








A vida neste mato sem cachorro continua tranquila, não há nada que possa alterar esta rotina caseira, florestal, mineral, ou lá o que seja esta quietude externa, porque a interna continua procurando algo novo, como sempre.


Esta semana a rotina foi quebrada infelizmente por um acidente fatal. Então é bom não desejar muito que algo aconteça por aqui porque pode deprimir mais ainda. O empregado de uma companhia desceu mina abaixo de caminhão e só foi parado por um bloco de rocha dura que não aliviou sua agonia. O choque foi desastroso e ele não teve tempo nem de pular pra fora do veículo, e a morte o recebeu de frente. Muito triste.


Mas a vida continua e temos mostra tripla acima da porta de nossa varanda. A alguns dias atrás um passarinho trazia gravetos e numa engenharia perfeita produziu um berço esplêndido para os ovos que logo em seguida foi colocando. Nosso geólogo sempre de plantão deu sinal do acontecido e feliz da vida veio me dizer que tínhamos hóspedes. Como assim, perguntei? E ele, vibrando, disse que a mamãe passarinho chocava pacientemente seus ovinhos e só saía para comer mas voltava literalmente voando pra não deixar seus filhotes desprovidos de calor, sujeitos às intempéries e aos predadores de ovos que imagino serem muitos por aqui.


Não dei muita bola, estes passarinhos andaram me irritando. Volta e meia faziam uma reviravolta na terra, especialmente num determinado vaso de plantas da varanda da frente, que me deixava furiosa. Eu resmungava alto, querendo que eles entendessem a minha indignação, e mas abaixava pra reunia a bagunça deixada no chão. Terra, folhas secas e pedacinhos de pau. Eu não entendia nada e os achava muito atrevidos e violentos. Que a mãe natureza me perdoe mas a sujeira era grande e eu não entendia nada de passarinhos.


Ontem pela manhã notei que a mãe passarinha ia e vinha do ninho. Com o olhar mais atento notei que ela levava comida na bico e rapidamente entendi que poderiam ser para os filhotes recém-nascidos. Peguei um banco, minha câmera fotográfica e com um certo medo de ser atacada pela maezona, posicionei a máquina de forma que o seu visor móvel me deixasse ver o que havia dentro do ninho estando por baixo dele.


Não deu outra, ali estavam três criaturinhas peladas, com cabeça, membros e olhos ainda fechados de um negro inchaço, fazendo com que parecessem ETs. Não sei bem o que senti mas meus dedos instantaneamente reagiram disparando o botão da máquina. A cada clicada as avezinhas respondiam com reflexo e abriam a boca. Um movimento natural, não aprendido e que naturalmente garantiria o resto do processo da gestação.


Felizmente a maezona não se meteu comigo e acho até que ficou apreensiva vendo aquela invasão de privacidade. Caminhava agitada na murinho próximo, talvez se preparando pra atacar caso eu resolvesse colocar a mão na prole.


Hoje fui olhá-los novamente, e lá estavam do mesmo jeito, enroscadinhos entre si, pura pele, pura fragilidade, pulsação de mais de 120 bpm, um potencial de vida impressionante.


E eu aqui com meus botões, vou entendendo certas coisas. Uma delas é que aquela bagunça no meu vaso de planta nada mais era do que o garimpar de gravetos para, talvez aquele ninho, e a outra é que a vida é na maioria das vezes muito silenciosa. Me resta então, aprender muito com os nossos novos hóspedes.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A babação já começou








Desde que soube que vou ser avó, sim isto mesmo, vou entrar pro time daquelas que suprem toda a necessidade de afeto e rebeldia das criaturinhas que chegam a este mundo sem ter noção do que encontrarão pela frente.


Não é de hoje que ando pensando neste assunto, coisa que a pouco tempo atrás eu bloqueava ferozmente. Acho que ainda não estava preparada, talvez, as velhas tarefas de mãe estivessem ainda muito vivas. Não que eu não tivesse gostado da experiência materna, muito pelo contrário, mas a anulação de parte de mim foi intensa, traumática e eu precisava de um reparo, de uma recauchutagem, talvez, um virar de avesso pra ver o que ainda havia daquela pessoa pré-maternidade.



Liberdade, depois que a missão se dá por cumprida, é algo que nos recompensa e revigora, o frescor da juventude reaparece. O cenário antes pasteurizado, permeado por fazeres e não fazeres pertencentes à tarefa de educar os filhos, surge cheio possibilidades porque o novo olhar busca novos significados.


Então, cá estou eu, no prenúncio de uma nova pessoa, sempre na esperança de dias melhores. Os sintomas começam a surgir. Sono, muito sono, acho que é solidariedade com minha filha grávida que só encontra consolo na cama, muita cama. Se sento pra assistir TV, durmo, se vou ao cinema durmo, se o papo é chato, dá um soninho... Mas tudo isto é normal e acontece com toda a torcida da meia idade, que já se declarou a the best.


Levando em conta então este novo estado de espírito, sim, porque acho que ser avó é isto, andei buscando na fotografia o universo infantil. E neste mato sem cachorro, pode faltar cachorro, mas criança é presença obrigatória nos jovens casais que chegam às terras carajenses.


São muitas, mas muitas festas infantis. Todo fim de semana tem pelo menos uma, e os melhores locais para estes eventos são disputadíssimos. Com este mercado certo e crescente, surgem vários profissionais para atender a demanda. Tem gente pra decorar as festas, gente pra divertir as crianças enquanto os pais se regalam com os comes e bebes, gente que aluga brinquedos de parque de diversão, gente que faz docinhos, gente que faz bolo, que prepara os salgadinhos. A concorrência está na área e o mercado ganha cada vez mais novos adeptos e idéias.


Mas voltando as fotos, caminhava pela vila num sábado de manhã, quando soube que haveria o desfile do Sete de Setembro. Retornei à casa, agarrei a máquina e voltei pro centro onde aconteceria o evento. Liguei a câmera e percebi que meu foco eram as crianças. Relembrei meu tempo de mãe na porta da escola, participando de tudo, registrando tudo e, obviamente, me intrometendo em tudo. Mãe às vezes é muito chata. Esta lição estou levando pra minha avónidade onde pretendo cometer só outros bons tipos de erros, naturalmente.



As carinhas eram as mais diversas, mas a inocência... a marca registrada, talvez com data de validade, mas ainda muito fresca, recém fabricada.


Foram muitas fotos, e o prazer foi imenso.


Outro evento neste fim de semana, foi o aniversário da Allyne, que já não é mais criança nos seus vinte e tantos anos, mas se nega a entrar neste mundo adulto sem a alegria, o coração puro, a inocência da sua meninice. Foi uma festa pra criança nenhuma botar defeito. De palhaço a jujuba, de bolas a pirulito, de cama-elástica a cachorro quente, não faltou nem fantasia. Piratas, borboletas, cowboys, Fred e Vilmas, rastafaries, doutores e black powers. A diversão era ver quem chegava e como o quê. Crianças e adultos disputavam as atenções num clima de total descontração.


O djay animava ainda mais a festa e os dançantes entrecortados pelos raios lasers, eram libertados do stress da semana, voltando a ser crianças por uma noite.


E a câmera pendurada no pescoço, não perdia um só momento, o foco era difícil atrás dos meus óculos escuros de gringa, mas o toque no dispositivo disparador não se inibia. Pau na máquina e vamos ver o que vai dar. E foram belas as fotos porque mágica foi a festa.


Fazendo agora um balanço, acho que estou me preparando pra este novo universo, onde o real pouco importa, o bom é viver a fantasia, e imaginar que seremos eternizados nestas novas criaturinhas que acabam de começar a nascer. E isto é só o começo.




domingo, 15 de agosto de 2010

Tem mutuca e mutuca
















Depois de um tenebroso inverno, dois meses no Rio, cá estou eu de volta, apesar de uma certa preguiça pra escrever. Acho que a inércia reinante se apodera de nós seres fadados a viver esta experiência amazônica sem ter nada haver com isto tudo aqui.

Que estranho lugar que apesar do romantismo do ser floresta não nos deixa livre das maldições que a ela pertence e que com mais outro tanto de bendições, fazem dela o equilíbrio perfeito neste planeta em mutação.

Hoje fomos a uma cachoeira. Continuo querendo desbravar as terras vermelhas que cada vez trazem mais riqueza ao país, visto que a China continua crescendo e necessitando ainda muito do nosso excelente minério de ferro. É impressionante ver nesta secura toda - porque agora é verão e chuva por aqui é coisa rara - o pó vermelho entranhando pelas pequenas brechas, qualquer uma, dos carros, das pequenas plantas, das grandes castanheiras, dos pássaros e insetos, é um pó fino que parece entrar pelos nossos pulmões e deixar nossas entranhas áridas como o ar que respiro agora.

Ainda bem que temos muita água pra umedecer a pista por onde os caminhões gigantes carregados de centenas de toneladas de minério passam, num vai e vem de vinte quatro horas por dia. Isto aqui não pára nunca, nem com acidentes fatais que tive notícia na semana passada. Ainda bem que chega água para molhar nossos jardins que parecem palhas e nossa horta que ainda resiste a nossa ausência prolongada até que as torrentes de água recomecem a cair em novembro.

Água não falta por aqui, eu espero que nunca pois esta ilimitada fonte em nossas casas mantém nossa alegria depois de um bom banho e uma roupa bem lavada na máquina, um suco de manhã e aquele copinho d'água em jejum que aprendi a tomar. A década do cinquentenário continua passando e esta água tem que ajudar a irrigar este meu corpo cada vez mais ressecado.

Mas falando em água, nosso passeio eram nas Águas Claras, cachoeira conhecida na região como ideal para banho por causa dos seus poços rasos e límpidos. Própria para crianças, são os adultos que se deleitam nas investidas pela trilha forrada de folhas belas-mortas, na antevisão da grande queda d'água. Nossa atração por água é algo realmente pré-natal, começo a entender cada vez melhor que da água viemos e talvez para ela voltemos. Planeta Água, como diria Guilherme Arantes.

Estávamos em quatro carros e haviam quatro crianças. A expectativa era de que passaríamos uma manhã gostosa com muitos mergulhos e banhos nas águas claras da cachoeira. Estacionamos os carros e começamos a caminhada. Depois de alguns minutos já ouvíamos o seu barulho no meio de tantos assovios e cantos de pássaros. Digo assovio poque aquele pássaro do fiu-fiu estava lá com toda a sua gangue. Não sei de onde aparecem tantos cantadores paqueras, mas enfim, acho que somos bem vindos.

E chegamos a bela linha d'água enchendo poços arredondados, cristalinos que sem pudor mostravam toda sua profundidade. Rasos, gélidos, verdadeiros espelhos dágua. Com pressa tiramos nossas roupas e arrumamos lugar para as mochilas. E depressa chegaram as mutucas, os carrapatos, as aranhas e formigas.

Talvez tivessem antas próximas, nosso geólogo de plantão logo logo anunciou, e sem escrúpulos disse que aquelas mutucas, moscas gigantes, tinham uma picada muito dolorosa e ainda por cima deixavam bernes no nosso corpo, que cresciam e comiam nossa carne.

Sempre digo que a ignorância muitas vezes é coisa bem vinda. Se nosso geólogo, que já havia sofrido de um berne na cabeça que ainda por cima tinha sido extraído pela sogra (acho que não preciso dizer mais nada), não tivesse falado dos atributos do tal moscão, ninguém teria dado a mínima para o inseto e teríamos ficado apenas com o incômodo dos seus ataques.

E para fazer curta uma história que foi curta mesmo porque não ficamos mais que meia hora no lugar, mergulhamos na água mais fria e mais limpa dos últimos tempos, escorregamos na cachoeria, caímos de bunda nas pedras roliças, pisamos no chão raso e irregular e tiramos algumas fotos para registrar o feito. O sorriso saiu fácil, assim como os gritos, enquanto isto nosso geólogo, profundo conhecedor dos matos mineiros e adjacências, nem se quer tirou a roupa e com o auxílio de uma toalha espantava freneticamente as mutucas que pareciam ter encontrado uma excelente vítima. Dentro d'água nos sentíamos refrescados e seguros, nenhum inseto, nem mesmo uma cobra d'água me passava pela cabeça.

Voltamos para casa e a primeira coisa que nosso geólogo fez foi googlar e acabar descobrindo que algumas espécies de mutuca não colocam berne, talvez por isto o gado que povoa as terras desmatadas da região não tenha berne. Resolvido o mistério, a paz voltou a reinar, mas o programa de índio já tinha sido feito. Agora só restava esperar as chuvas, que com certeza, segundo nosso guia engenheiro florestal, levam todos os insetos embora.