quinta-feira, 12 de abril de 2012

A maré tava mesmo era pra peixe











Água, mais água, mais e mais, mas muuuuuuuita água, ninguém do sul maravilha tem noção de quanta água este Pará tem. Será este o Planeta Água cantado pelo Guilherme Arantes? Pois bem, estivemos no Marajó. Por favor não me corrijam, por aqui não se fala "estivemos na Ilha de Marajó". Na, na, ni, na, não. Se fizer isto, será corrigida imediatamente por um nativo ofendido que lhe colocará nos trilhos marajoaras.

Já havia algum tempo que pensava em visitar aquele recôndito destino. Sim, digo isto porque nunca havia ouvido alguém dizer que tinha ido passar férias ou aproveitar o feriado no Marajó, ou na Ilha de Marajó, se preferirem. O lugar é loooooonge, a gente tem que ir até Belém, que para os paulistas, cariocas, ou qualquer outro habitante deste imenso Brasil, é lugar que não consta dos principais pacotes turísticos e que fica no extremo norte deste país gigante, sendo assim, as passagens aéreas são muito caras, então é melhor ir pra NY, pensam muitos.

Em Belém se pega uma barca às 6.30h da manhã (ainda era noite quando chegamos ao porto). A viagem dura 3 horas e a barca vai singrando as águas barrentas da Baía de Guajarás até a Baía de Marajó.

Opa! Chegamos! Porto de Camará! Não, ainda não, pegamos então um micro-ônibus que nos levará até Soure, a principal cidade da ilha e onde ficaremos hospedados. Mais 38 km de estrada e uma travessia de balsa. Ufa! Finalmente chegamos ao "O Canto do Francês". Pois é... lá está escondido Thierry, este francês que a 8 anos está ilhado do mundo, tocando sua pousada de pés descalços e com um português picado e tímido. Mas que chef! Preparou comida deliciosa com estética e porção francesa que fizeram do filhote e da dourada, os peixes mais santos de toda a Semana Santa.

Deixamos as malas no quarto, almoçamos e nos preparamos para o que seria o primeiro passeio. Digo SERIA, porque convenhamos, passear por uma fazenda de búfalos com diversas interrupções por animais peçonhentos e mamíferos extremamente sensíveis por conta dos filhotes recém paridos, não é bem um passeio mas uma aventura.

A Fazenda Bom Jesus é muito linda, quilômetros e quilômetros de área plana alagada, um cenário que até a Globo descobriu e tirou proveito para sua novela das seis. Mas não se engane, o romantismo logo se vai quando você percebe que o guia do "passeio" está nervoso e assustado com aquela búfala que lhe encara com a determinação de um guerreiro que promete lhe enfiar os chifres caso você decida passar entre ela e sua cria.

Olhei ao redor e não havia nem uma árvore pra poder subir, caso a dita cuja resolvesse correr atrás do inimigo. Era água pra todo o lado, pois estávamos num caminho elevado feito pelo fazendeiro para possibilitar mobilidade na fazenda. O guia diz pra nos afastarmos e começa a gritar "Vai te embora", firme, com sotaque vaqueiro e força macha. E depois de alguns minutos de troca ostensiva de olhares, a búfala se retira em direção a seu filhote. Ficamos sabendo então que nunca se deve passar entre uma búfala e sua cria, sob a pena de sofrer uma corrida e depois muitas chifradas que poderão lhe levar desta pra outra vida.

Depois de algumas paradas pra gritar "Vai te embora", sim porque haviam várias búfalas paridas na fazenda, o resto do "passeio" foi para apreciar o bicho preguiça na árvore, ou a cobra que passou tão rápida na água que só o guia viu, ou então, o jacaré que imaginamos no fundo do alagado, só no verão ou à noite pode ser visto. Ah! Conhecemos o sarará, crustáceo responsável pela cor vermelha dos Guarás. Estas aves típicas da região, ficam vermelhas por comerem sararás que tem alto teor de betacaroteno. Chegamos até o "retiro", lugar onde mora o vaqueiro que toma conta do rebanho de búfalos. Lugar muito simples, sem energia, com água de poço. Ouvimos ao fundo um som de rádio e nada mais. Silêncio absoluto nesta paisagem onde água e búfalos formam um par perfeito. Não tem pra mais ninguém, já se tentou criar gado por aqui mas é inútil, pois só quem gosta de se encharcar nestes alagados é o búfalo. Trazido da Índia no final do século passado, o búfalo se adaptou tão bem na ilha de Marajó que hoje seu rebanho é considerado o maior do país. São quatro as raças: Mediterrâneo, Murrah, Jafarabadi e Carabao. Os chifres mostram as diferenças de raça, pelo menos pra mim que só lembro daquela búfala enfezada no meio do nosso "passeio" preparando as armas.

Fechamos o passeio com um lindo por do sol, remando uma pequena canoa entre as águas da maré que subia e ao som de muitos pássaros, agora meus conhecidos. E não foi só, uma lua cheia do outro lado fazia gol, e acabamos num empate maravilhoso de astros.

No dia seguinte, outro "passeio" nos aguardava. Fomos conhecer a Fazenda São Jerônimo, famosa por ter guia e estrutura turística própria. Começamos numa carroça puxada à búfalo e acabamos numa canoa cheia de folhas de mangueiro, vegetação de mangue arrancada na luta pela sobrevivência enquanto subíamos um igarapé contra a corrente. Segunda aventura da temporada.

Tudo bacana. Caminhada pelo manguezal da fazenda, lindas árvores de raízes aéreas, caranguejos, aranhas caranguejeiras, formigas, pés dentro d'água, tropeções, perdi a tampinha da minha câmera, macaquinhos, etc, etc, etc. Chegamos ao igarapé e é hora de subir o igarapé numa canoa estreita movida a dois remos. Oito pessoas mais dois remadores e lá vamos nós, felizes e tranquilos, achando que a felicidade existe. Até que entramos pelo cano, quero dizer, pelo igarapé de águas torrentes, ou seja, correnteza suficiente pra impedir de mover a canoa com remos. Voltar? Nem pensar, segundo o guia, correríamos o risco de acabar na Baía, quiça no mar. Deriva total.

Caramba! A alternativa era nos agarrarmos à vegetação da margem, os mangueiros, e puxar com força pra vencer a correnteza. Simples assim. Apavorante assim. Hilário assim. Pois foi deste último jeito que decidimos encarar os fatos. Muitas piadas pra distrair e aliviar a tensão, muita força e garra pra segurar os mangueiros, muito equilíbrio pra não deixar a canoa virar (e eu só lembrava daquela música "a canoa virou, pois deixaram virar, foi por causa da ... que não soube remar"), e muita fé de que íamos chegar. Onde? Não importava. Qualquer terra firme e segura, longe de caranguejos gigantes e possíveis cobras e jacarés, que nos livrasse do pesadelo de ter pelo menos duas pessoas afogadas. Sim, duas mulheres não sabiam nadar e só sentimos falta do colete salva-vidas naquele exato instante.

Mas pra encurtar a conversa, depois de uma hora e meia "no limite", chegamos ao improvisado portinho da salvação. Alívio profundo. Caminhamos por entre uma floresta, passamos por alguns totens do antigo programa "NO LIMITE", e chegamos com a sensação de que o dia estava vencido. Ufa!

Mas pra não dizer que não falei de flores, na tarde deste mesmo dia, fomos a uma praia de rio, Pesqueiro, e outra, Barra Funda, nos deliciamos na água doce do rio apesar de rasa e barrenta. Os rios por aqui carregam muitos sedimentos nesta época do ano. Ah! Visitamos também um curtume, um ceramista, o comércio local, e almoçamos um filhote maravilhoso no Paraíso Verde. Carne de búfalo nem pensar por hoje.

Chegada a hora de voltar pra Belém. Depois de um domingo tranquilo, passado na pousada e imediações, Thierry nos levou de madrugada até a balsa pra pegar o micro-ônibus que nos atravessaria e levaria para a barca, e que depois de 3 horas de viagem alguém nos aguardaria no porto de Belém e nos levaria para o aeroporto. Lá pelas 3.30h da tarde de segunda estaríamos em casa. Ufa! Tem que ter fôlego pra ir pro Marajó.

Mas pensa que é só fôlego? Na, na, ni, na, não. Tem que que tem nervos também. No meio da viagem de volta pra Belém, nossa barca decide resgatar uma outra que havia ficado encalhada num banco de areia em plena baía. Como assim? Somos em torno de 600 passageiros, está chovendo, venta bastante, a maré ainda está baixa, corremos o risco de encalhar também e ainda temos que salvar nossos hermanos? Claro que sim, ética marítima, não podemos deixar outra embarcação sem socorro. E aí começa outro perrengue. Foram três as tentativas com uma corda que não me parecia forte o suficiente, mas que depois de vais-e-vens, tentando contornar os problemas de maré, areia, vento e o próprio peso, nossa embarcação conseguiu desencalhar a outra que por um bom tempo ainda tinha seu motor enguiçado. Foram uma hora e meia nesta tensão e na dúvida se conseguiríamos alcançar a tempo o voo em Belém. Felizmente, chegamos na hora do voo e sentamos, ainda molhados, nos assentos da TRIP. Molhados? Sim, esqueci de dizer que quando esperávamos para entrar na barca ainda em Camará, por volta das 6.45h da manhã, choveu chuva de vento e não teve guarda-chuva, nem telhado que impedisse o encharque total. Pintos molhados.

Bom, mas no balanço final, tenho a dizer que no Marajó, a maior ilha fluvio-marítima do Brasil, vimos um pouco de quase tudo, muito pouco mesmo, a ilha é graaaaaaaande demais, mas deu pra perceber que a vida por ali é dinâmica, apesar da quietude da gente, das casas, das ruas, de toda a cidade. Quem manda por lá não é o poder público, isto deu pra notar pelo descaso, descuido, abandono das ruas e construções. Quem manda por lá é a maré que traz água, muita água, e traz peixe, muito peixe, que cria búfalos, muitos búfalos, que alimenta a gente que teima em ficar, simplesmente porque é parte de lá assim como os pássaros, peixes, mangueiros, guaribas, preguiças, sararás, cobras, jacarés e muito mais. São parte deste Planeta Marajoara ainda tão desconhecido de nós brasileiros.


sábado, 31 de março de 2012

E no meio do caminho tinha uma castanheira


Hoje o tempo fechou, o céu está mais cinza que nunca, o silêncio é o maior que já ouvi, o ar está pesado apesar da leve brisa que insiste em dizer que a vida continua, a respiração está em descanso e dificulta o fluxo dos pensamentos, só uma pergunta ativa as conexões cerebrais: porque aquela centenária árvore caiu exatamente aos 40 minutos do dia 30 de março quando aqueles 11 trabalhadores voltavam de seus turnos?

O que nos coloca em determinados lugares, em determinadas circunstâncias? Seria o acaso ou algo que poderíamos ter feito para evitar? Mas como evitar que uma castanheira centenária deixe de cair sobre um ônibus com passageiros no meio do "nada"? "NADA"? Como assim, era uma floresta, cheia de árvores enormes, de raízes rasas, que caem todo dia, só que não presenciamos, não estão ao nosso alcance, são quilômetros e quilômetros de verde que tem sua própria dinâmica, suas próprias leis.

Nós escolhemos estar aqui. Conhecemos os riscos mas eles não nos impede de continuar neste lugar. A segurança chega a ser uma obsessão por aqui, ordem da empresa, diretriz prioritária a ser cumprida, mas no entanto, o acidente ocorreu e levou embora três funcionários e deixou outros nove feridos.

E ficamos assim paralisados, impotentes, diante deste fato - inevitável?

Fica então este sentimento de que estamos sujeitos, quer queiramos quer não, aos desígnios de uma força maior, que se expressa implacavelmente com uma árvore sobre nossas cabeças ou com um pensamento que interrompe o fluir da vida.

domingo, 4 de março de 2012

Entrando no clima







Assistindo ao Globo Repórter de sexta passada, percebi o quão familiar estou do que foi mostrado sobre a Amazônia. Me pareceu muito óbvio saber que aquele som, que o repórter tentava nos fazer adivinhar, era o do guariba, e não o som de um "ronco" como ele associou. Aquele era o grito inconfundível daqueles primatas. Só um leigo não saberia reconhecê-lo.

Como assim? Leigo? E eu sou lá alguma expert in Amazônia? Pois é... depois de um certo tempo neste mato-sem-cachorro, a gente fica meio sabidinha, e sabe o por quê? É só ir até a varanda e avistá-la, assim mesmo, bem perto, menos de cem metros a frente. Lá está majestosa, pomposa, intocável, verde como nunca, surpreendente nossa Amazônia.

Quando na reportagem, aquela onça pintada foi filmada à noite rondando o acampamento dos cientistas aventureiros naquelas bandas da Guiana, e o repórter fez o maior suspense como tendo sido um ato inédito, eu pensei... ora que coisa mais comum e sem graça. Sim porque na semana passada nosso geólogo-sempre-de-plantão me trouxe uma foto colorida da onça que ronda ininterruptamente o alojamento do projeto de cobre. Ela está à procura de carne humana, já que a última investida foi frustrada. A moça atacada está viva e apenas aguardando outra cirurgia plástica no rosto deformado pela mamífera. Ih, será fêmea mesmo?

Na reportagem, um dos cientistas diz que ficou surpreso de ver as araras tão de perto, seu colorido, sua beleza, era sua primeira vez, normalmente elas voam alto e só se vê uma mancha escura passando no céu. Engano dele, por aqui as araras pousam nas árvores e voam baixo nos deliciando com sua beleza e cantoria.

O tamanduá gigante que a cientista teve dificuldade em fotografar, já foi vista na estrada por nosso geólogo-sempre-de-plantão nas viagens aos projetos. Sem falar nas antas que podem ser vistas passeando livres no zoológico, ou as investidas em bando dos quatis nas mangueiras nos quintais das casas (eles adoram manga).

Uma das coisas que mais me surpreendeu numa das primeiras investidas pela floresta, logo que viemos morar aqui, foi uma minúscula perereca que encontramos na canga por onde passávamos. Um geólogo amigo a pegou e explicou que o que ela tinha de tamanho, não se comparava ao veneno mortal que continha. Assistindo a reportagem fiquei pensando no perigo que aqueles cientistas corriam ao pegar aquelas pererecas, não tão pequenas como a que vimos, mas talvez igualmente venenosas. Eles estavam maravilhados com elas.

Isto tudo pra dizer, que hoje já olho com outros olhos as reportagens sobre a Amazônia, e que me sinto muito mais próximo deste "planeta verde". Mas há um novo desafio que venho tentando vencer, e este sim, pode ser dos maiores: cantar no Kuarup.

Estou participando do Grupo Folclórico Kuarup. E sexta passada foi minha primeira apresentação cantando. Sim... ainda não me soa muito bem esta nova função, cantora, mas eles precisavam de gente, eu precisava de mais um motivo pra estar por estas bandas, eles toparam me ensinar, eu topei colocar a voz pra fora, então ficamos acertados. Depois de dois ensaios, lá estava eu com a cara mais lavada do mundo, tentando me entender ribeirinha no meio de tantas saias, e curimbós, e maracas, e banjo, e violão, e cordas, e flores, colares, brincos, maquiagem, e gente experiente que parece deslizar no passo do carimbó.

Acho que é preciso dizer que a apresentação foi boa, apesar de mim, e que continuo tendo a chance de melhorar. Potencial parece que tenho, agora é só treinar, treinar, treinar e treinar muuuuuito pra quem sabe me sentir muito desejada no grupo. Quanta pretensão, hein? Mas aprendi que muita coisa nesta vida é alcançada com motivação. E me parece que a motivação por aqui é questão de sobrevivência. Portanto, vamos à luta, vou correr atrás do talento, quem sabe ele está escondido nestes novos sons e imagens da gente Amazônica.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sob risco











Ando meio em falta com meu blog, ou será comigo mesma? Às vezes dá uma preguiça de escrever... Mas nestes últimos dias não posso dizer que tudo anda no mesmo: a mesma chuva, as mesmas pessoas, as mesmas cotias enterrando sementes, as diferentes araras berrando no céu, a rotina de sempre, e uma velada expectativa de que a qualquer momento vou deparar com uma onça pelo caminho.

Se ainda não falei disto é porque estava apurando os fatos, mas depois que uma moça foi atacada por uma onça num dos projetos da mineração, o assunto passou a ser constante nas conversas de bar, no mercado, no salão de beleza e, principalmente entre os caminhantes. Nós, costumeiros caminhantes, estamos deixando de lado aquele andar despreocupado e contemplativo pra zigue-zaguear entre as ruas, na tentativa de cumprir a "uma hora" necessária para a queima das calorias adquiridas na véspera. Aquele caminhar solitário passou a ser um risco e se for pela avenida que delimita este mato sem cachorro o risco aumenta.

Talvez esteja exagerando mas não quero arriscar ter o rosto deformado por uma "patinha" ou por uns caninos afiados, obviamente se sobreviver ao felino voraz que já deve estar sabendo que carne humana é das boas, além de farta nestas redondezas. Portanto, recolho-me a minha insignificância e vou arriscar a vida em outras bandas.

Se não falei, digo agora da nossa tentativa de formar um grupo de fotografia. Começamos a algum tempo atrás e apesar do grupo não ser um exemplo de motivação e organização, estamos clicando persistentemente. Neste sábado, apesar de alguns acharem arriscado, marcamos uma expedição fotográfica ao mercado de Parauapebas. Me parecia um local interessante. Colorido, muitas formas, pessoas de diversas procedências, um lugar cheio de cheiros e sabores, ideal para o despertar dos sentidos. "Mas é arriscado" disseram uns", "É melhor irmos em grupo" disseram outros. Não entendi muito o medo, mas às nove horas do sábado descia a serra para esta "arriscada expedição" sozinha. Ninguém mais compareceu ao combinado.

Só tenho a declarar que me diverti muito, fui um pinto no lixo. Cisquei todos os cantos, e me senti totalmente segura, mesmo com tantas perguntas e curiosidades dos feirantes. "É pra televisão, moça?", "Posso tirar uma foto com meu filho?", "Cê é estrangeira?", "Quero sair na foto não", "É pro jornal, né?". E assim fui sendo o centro das atenções. Como poderia ser atacada, roubada, molestada, assassinada, etc, etc, etc. Que mal fariam estas pessoas? Claro, malandros espreitam e aguardam a oportunidade, mas eu estava em missão de paz e senti que ela reinava ali.

Conclusão? Os vários clics me renderam alegria, energia renovada e até algumas boas fotos. E como diriam meus antepassados, "quem arrisca não petisca", e o que eu tive foi um verdadeiro banquete.

Mas continuando falando sobre os últimos acontecimentos, o de hoje foi sem dúvida o de menor risco. Agarrada numa corda, desci uma barreira rochosa de vinte metros de altura em plena canga amazônica (local de maior concentração do minério de ferro do planeta). Parece perigoso, arriscado, uma insanidade? Pois bem, foi onde me senti mais segura. Nem que eu quisesse conseguiria me desgarrar daquela corda amarrada a uma "cadeirinha" de tiras que sustentava meu corpo enquanto a gravidade puxava com toda a força pra baixo. Foi só um rapel de domingo.

A princípio muito adrenalina, mas num rápido balanço entre custo e benefício, não duvidei de que teria "a lifetime experience". E me joguei com a confiança de quem sabe o que está fazendo e de quem não tem nada a perder, a não ser a vida. Só valeu!

Agora, sentada aqui na tentativa de entender sobre os riscos da vida, percebo que a relatividade continua norteando minha vida e tornando-a muito mais rica.

E que venham novos riscos!




segunda-feira, 7 de novembro de 2011

E aí se foram...



Continuando o episódio "transitoriedade da vida", acabo de testemunhar mais uma vez este inexorável fato. Neste sábado de manhã, um lindo dia por sinal, depois de alguns dias nublados e chuvosos, percebi que nossa amiga sabiá (se é que posso chamá-la assim) movimentava-se freneticamente pela varanda. Ia e vinha ao ninho como quem tem algo a fazer de urgente, e então percebi que havia chegado o dia D, quer dizer, o dia S quando os sabiazinhos deixariam o seguro e confortável berço.

As penas já eram visíveis a alguns dias. Quando eles levantavam os bicos pra receber o alimento que a mãe trazia no bico, deixavam à mostra o pequeno corpo já emplumado. Aliás, bem mais bonitinhos, por que depenados eram um horror!

E neste sábado, talvez pelo fato do dia quente, claro e convidativo ao voo livre, um deles já se aventurava na borda do vasoninho. Quieto, quietinho, imóvel mesmo, como quem está pegando fôlego, se concentrando, ganhando coragem, revisando a técnica, para então, não cair de cabeça no chão, e sim, no mundão verde.

Imagino que a mamãe sabiá tenha dado as instruções teóricas durante este mês de comidinha no bico e muito soninho. Agora seria a hora de testar na prática o aprendizado, viu passarinho?! Imagino que ela deva ter passado a limpo com eles cada lição e exigido um teste teórico final com mínimo de 90% de acerto, pois caso contrário estariam em apuros nas mandíbulas felinas circundantes. Voar é fundamental nesta selva! Ouçam todos o meu conselho!

Pois então, o mais esperto dos três, quando olhei, já havia sumido do mapa, do vaso quero dizer, nem sinal dele, nem rastro no céu, muito menos na terra. FUI! Diria ele aliviado pela tensão do primeiro voo.

E os outros? Seriam eles mais imaturos, preguiçosos, inseguros, menos aplicados nos estudos, ou quem sabe espertinhos... Ah! Ficar no ninho um pouco mais talvez garanta mais um rango, mais uma caminha quente, um colinho, um beijinho da mama e quem sabe um último sonho lindo. Boa idéia, mas acho que pensaram bem e resolveram que a liberdade tem seus encantos.

Voltei pra dentro de casa e um pouco mais tarde vi que os outros dois já estavam fora do ninho. Um deles empoleirado no vaso de planta no chão e o outro na cerâmica da varanda. Ai meu Deus, pensei! Se eles não forem rápidos uma cotia poderá pegá-los. Mas dirão alguns: cotia é herbívoro. Um dia um jardineiro disse que os coelhinhos estavam sumindo de Carajás e perguntei o porquê. Esperava por qualquer resposta menos a que ele me deu, "as cotias comem os coelhos". Pois é, né? Coisas deste mato sem cachorro, vai entender. Na dúvida, fui correndo pegar minha máquina fotográfica com a idéia de fincar posto na varanda até que eles decolassem. Instinto de preservação e de oportunidade, é claro!

Aproveitei a imobilidade das criaturinhas e fotografei até não poder mais. Encostada na parede, deitada no chão, agachada, sobre a cadeira, de longe, de perto, por cima, por baixo, na diagonal, uma sessão fotográfica de muitos movimentos, diferentemente do padrão, onde quem se move é o modelo. Me senti uma Sebastião Salgado.

Tranquilidade, podem pensar... ledo engano... pois a sabiá cantava alto, voava rasante, olhava fulminante e chegou a pousar no chão da varanda bem perto pra me desafiar. Eu li nos olhos dela, eu sabia que corria perigo, já haviam me dito que estes pássaros é quem mandam no pedaço e ai de quem tirar proveito de suas crias. Eles viram bicho, mesmo!

Mas eu não me intimidei, fui adiante, respiração presa pra não tremer a foto e não mostrar fraqueza. Olhei de volta dando minha resposta: "é só fotografia, minha amiga sabiá". E com este tom de intimidade, acho que ela entendeu. Consegui terminar o serviço e no último shot que arrisquei bem mais perto, um dos babies voou rasteiro pra garagem, seguido de sua mama que foi correndo, quero dizer, voando ao seu socorro com mais proteína no bico. Reforço alimentar pra enfrentar este monstro grande de bico longo e preto.

O outro irmão continuou na dele, aguardando novos acontecimentos, mas isto não durou muito. Por volta das doze horas, quando o sol já dissera que não iria embora enquanto todos eles não encarassem a grande aventura do dia, sem mais nem menos, o pequerrucho levantou voo.

E agora, só me lembro do Mário.

"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho
Eles passarão
E eu passarinho"







sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Eufemismos de sobrevivência

Enquanto nossa sabiá continua postada sobre os três ovinhos no vasinho da varanda, "outra sabiá" está tendo que construir seu ninho em Parauapebas. É bem verdade que não é para colocar seus ovos mas um monte de "tralha" que acumulou nos seus vinte e poucos anos (imagina quando chegar aos 54?). Panelas, roupas, livros, prateleiras, e mais panelas, roupas, livros, prateleiras.

Conversando outro dia com minha (praticamente) personal trainer enquanto malhava, soube que ela teria que se mudar. Isto exigiria um super esforço e ela não parecia nada motivada. E vamos combinar aqui que, se no mato sem cachorro tem seus encantos, o "Peba" tem muitos desencantos. A começar pelo esgoto correndo a céu aberto, o calor infernal, a poeira, o tráfico caótico, a falta de energia e água constante, e outras coisitas mais.

A cada dia ela me contava algo. E eu? Só malhando. Primeiro contou sobre o prazo compulsório de um mês para sair da casa que mora aqui no mato sem cachorro. Depois, a procura sofrida pelo apartamento novo no "Peba". Preços de aluguel pela hora da morte, pouquíssimas e péssimas opções. Depois a negociação finalizada com o imóvel. Ufa! E ultimamente sobre o processo de encaixotamento das coisas para a mudança. O seu astral não parecia dos melhores, fácil de entender.

Hoje, durante a malhação, eu perguntei sobre o apartamento e ela estranhou a pergunta.
-Não é um apartamento.
-Como assim?
-Ele não tem andares.
-Mas apartamento pode ser no térreo.
-Não... ele é uma kitinete e não um apartamento"
e torceu o nariz.

Percebi sua insatisfação com o acanhado espaço do seu novo ninho e imediatamente meu instinto de preservação da espécie pulou e gritou:
-Opa! Kitinete coisa nenhuma, você vai é morar num FLAT.

Os olhos dela brilharam e o sorriso se abriu. Levou alguns segundos para assimilar a nova realidade e de imediato me convidou para um café no FLAT. Em seguida se apressou para contar a colega de trabalho:
-Eu vou morar é num FLAT.

E seu ânimo, nitidamente, subiu muitos andares. E o que parecia fatalidade, parece que tá virando festa. Já até fomos convidadas para o OPENFLAT.

E assim a gente vai levando. Se no mato não tem cachorro, a gente caça com o CAT, digo FLAT.
(Esta foi infame!)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Visitas inesperadas





Sorry! It feels like years since I've posted something new in this blog. But I'm back.

Pois é... Tantas coisas acontecendo (obviamente fora deste mato sem cachorro), que minha motivação pra escrever ficou hibernando. Mas hoje, salvando no computador as postagens do blog da minha filha, vida-de-davi.blogspot.com, onde ela relata desde o nascimento do seu filho até os novos dentinhos do banguelinha, pensei que o Davi num futuro próximo, pudesse gostar muito de ler sobre suas primeiras estréias neste planeta. Fiquei pensando que se minha mãe tivesse escrito um blog como este (coisa totalmente impossível a 54 anos atrás), acho que eu entenderia um pouco mais da minha pessoa. Talvez nem precisaria de um Freud, ou daria a ele muito mais material pro meu diagnóstico e quem sabe uma possibilidade de cura.

Mas enfim, cá estou eu tentando calibrar meu eixo neste mundão verde, quando percebo que apesar do vagar das horas, a vida anda acontecendo depressa e surpreendentemente linda.

Chegamos da viagem a Londres/Paris e tudo parecia o mesmo, com exceção de uma movimentação diferente de pássaros na varanda da casa. Acomodamos as coisas dentro de casa e pela porta de tela da sala, vi que a construção de um ninho tinha sido iniciada no vasinho de planta. Logo deduzi que a sabiá, que anteriormente havia feito ninhos em diferentes partes da casa (porta do sótão e da varanda de trás), atraída talvez pela forma perfeita do vasinho e pela quietude da varanda (a casa ficou vazia por 15 dias), resolveu iniciar seu novo ninho. Acho que estes pássaros não reciclam, pois os outros ninhos nunca mais foram reutilizados. Um desperdício... ou quem sabe sabedoria, já que aqueles ninhos já estavam velhos, talvez cheios de bactérias, fundos, vírus... sei lá. A natureza é sábia.

Olhei bem para o serviço ainda inacabado, e percebi que ela trazia gravetos para finalizar a obra. Que trabalho! Pensando bem, um trabalhão pois ela trazia no bico, graveto por graveto, não tinha quem lhe ajudasse, muito menos um transporte motorizado pra facilitar as coisas. O trabalho era bical mesmo.

Todo dia espreito o dia a dia desta brava criaturinha, e evito fazer movimento brusco quando abro a porta da varanda. Ela já acabou o ninho e agora repousa silenciosa e solenemente sobre os ovos que postou. Isto mesmo, acabei de descobrir que aves também postam, claro que ovos e não textos.

Bom, mas a outra boa surpresa foi ver um pendão de Amarilis no outro vaso de planta. Há muito tempo eu esperava por isto mas sem muita esperança. Agora olho pra minha varanda com muita curiosidade e satisfação. Registro cada movimento dos meus hóspedes. Conheço mais ou menos o desenrolar das diárias, mas isto não impede que eu esteja atenta e vibrando com a intensidade de suas ações.

Três passarinhos sairão voando daqui a alguns dias e a Amarilis vai envelhecer, murchar e morrer. Wow! Acabo de descobrir duas metáforas juntas! E eu que comecei esta postagem sem saber como iria falar da transitoriedade da vida...